
Nota: De vez em quando me bate uma de escritor. Isso é raro, mas às vezes acontece. Normalmente são textos pequenos, estorinhas que me vêm na cabeça por um motivo ou por outro, normalmente ligado a algo que eu vivenciei, li em algum lugar, ou assisti na TV. E quando isso acontece, eu coloco aqui no blog, sob a categoria “Literatices”. Se é bom, não sei, mas lá vai… e tem mais “literatices” minhas aqui…
Félix tinha tomado uma decisão. A derradeira decisão: ia acabar com a própria vida. A mesma tinha ficado vazia, perdido o propósito, ele não tinha nada nem ninguém para o que viver. Ainda não havia decidido como ia fazê-lo, mas antes disso (talvez essa fosse realmente a sua última decisão – o como) e como ele não tinha pressa, resolveu fazer uma lista das coisas que queria ter feito e não fez, por qualquer motivo que fosse.
Pegou um bloco de notas e começou a lista. Quando estava na sétima página do bloco viu que tinha um montão de “coisas que queria ter feito e não fez”. E resolveu que tinha algumas coisas ali que ele não poderia deixar de fazer antes de ir. Ele estava decidido, ia se matar, mas para que a pressa? Então resolveu rever a lista e priorizá-la. Ele era bom naquilo. Era uma pessoa extremamente organizada. Sua vida inteira era detalhadamente planejada. Não era de se espantar que sua preparação para morrer não fosse diferente.
Pegou outro pedaço de papel e começou a listar as coisas em order de importância ou de urgência. O que fez ele lembra de outras coisas, que então foram adicionadas à primeira lista. E que acabaram influenciando a ordem da segunda lista. A coisa estava ficando complicada e ele resolveu encerrar por ali naquele dia. Amanhã continuaria. Pendurou as duas listas num quadro de cortiça em seu quarto e foi dormir. Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, sonhou. Com as coisas da lista.
O dia seguite era um sábado e ele nào precisava ir trabalhar. Depois de tomar um café, resolveu retomar o trabalho nas listas. E logo descobriu duas coisas: a primeira era que algumas coisas que ele queria fazer demandavam coisas, atividades, menores, que não estavam na lista orginal, mas que sem as quais as coisas “grandes” não iam sair. Sendo assim, ele resolveu “quebrar” as coisas importantes e suas folhas de papel separadas, com as atividades menores listadas em cada uma delas. As folhas já não cabiam mais no quadro de cortiça, e ele começou a colar as folhas direto nas quarto paredes do quarto. A segunda coisa que ele sacou foi que, algumas coisas dependiam de outras, numa determinada ordem. Ou seja, só as listinhas não iam dar conta do recado. Ele tinha que bolar um plano. E por aí foi. Quando ele se deu conta, eram mais de 6 da tarde e ele não tinha parado nem para comer. Resolveu encerrar por ali o dia, com a promessa de continuar no dia seguinte. E colocou mais uma atividade na lista: comprar um computador, pois aquilo estava ficando fora de controle. O que lembrou a ele que ele tinha que arrumar um jeito de pagar por todas as coisas que ele queria fazer. Então tinha que ver o quanto ele tinha, versus o quanto tudo ia custar, etc.
Resolveu tomar um banho e ir no mercado comprar umas cervejas e os ingredientes para um sanduíche. Na fila do caixa, na sua frente, estava uma mulher. Ele ainda não tinha conseguido ver o rosto dela, mas ela parecia da sua faixa etária. E bunda e o perfume já dela tinham conquistador ele. E então ele lembrou do item 53 da lista: “paquerar uma completa estranha na rua, ao vivo, e não pela Internet”. O antigo ele era o mais tímido dos tímidos e nunca faria isso, mas o novo ele, o suicida, tinha um plano a cumprir. E sem pensar muito cutucou no ombro dela e disse: “Oi.”
Cidinha não costumava dar papo para estranhos, mas alguma coisa naquele cara no mercado havia chamado a atenção dela, mesmo antes dele entrar logo atrás dela na fila. Alguma coisa no seu olhar, uma mistura de triste com obstinado tinha mexido com ela. Ela estava recém-separada, havia mudado recentemente para o bairro e ainda não tinha feito novos amigos. Antes mesmo dele chamá-la para sair, ela sabia que ia topar. E o programa fora naquele dia mesmo, direto do mercado, numa boa cantina italiana ali perto (ser pizzailo era o número 17 da lista dele).
Num outro sábado, um mês depois – Félix e Cidinha já eram um casal e passavam a maior parte do tempo juntos – o programa era um jantar na casa dele, preparado pelo próprio, acompanhado de um ótimo vinho neo-zeolandês (entender de vinhos, item 29 da lista). Uma coisa levou à outra e no final da noite ele a levou para conhecer o seu quarto. Seria a primeira noite deles juntos.
Ao entrar, ela nota as paredes cobertas de folhas de papel e pergunta: “o que é isso?”. E ele responde: “Nada”.
Na manhã seguinte, ela ainda dormindo, ele resolveu a recolher as folhas das paredes. Ela tinha mudado completamente suas prioridades e aquele plano estava completamente furado. O que era ótimo. Outra coisa que ele resolveu foi que, dali para a frente, ele só ia planejar sua vida no curto prazo, e no limite de uma folha de papel. Afinal de contas, mesmo os melhores planos podem ir por água abaixo. E isso não é necessariamente ruim.
Sobre a idéia de se matar? Mas nem fudendo…