
Eu escrevi aqui recentemente um post onde eu falava das minhas impressões sobre o Rio de Janeiro. Eu escrevi o post mas não expliquei aqui os motivos pelo qual ele foi escrito. Então, para contextualizar esse post e aquele que foi escrito antes, eu tenho que explicar uma coisa. Aqui vai: quando em visita ao Rio por três semanas, na semana retrasada, a Kelly foi mais uma vítima da extrema violência urbana da qual a cidade é vítima. Ela foi sequestrada e ficou sob a mira de um revólver por duas horas, até ser liberada pelo ladrão, que levou algum dinheiro, o celular emprestado que ela usava e mais uma ou outra coisa que tinha na bolsa. Eram 7:30 da noite e ela estava sozinha no carro da mãe dela, na região do Jardim Oceânico na Barra da Tijuca. Felizmente, tudo acabou bem e, por sua própria calma em lidar com a situação, ela saiu dessa inteira, pelo menos físicamente, já que psicologicamante é mais difícil de esquecer um susto desse.
Aquele post foi um desabafo e uma constatação e não vou repetir aqui o que disse lá. Mas nem todo mundo pensa igual e, hoje, o meu amigo e compadre Cláudio, que é primo da Kelly e padrinho da Leticia, colocou um comentário aqui no blog sob a visão dele sobre esse assunto. E eu queria compartilhar ela com o resto do pessoal do blog, já que nem todo mundo lê os comentários (ou quase ninguém lê).
Meu amigo Cláudio e eu temos visões diferentes sobre esse assunto, o que é perfeitamente ok, já que temos “lentes” diferentes de como vemos a vida. Como morador de Vila Isabel, membro da Bateria da escola de samba do seu bairro e amante das coisas boas que a cidade tem, ele oferece uma análise do Rio sob outro ponto de vista. Aqui vai:
“É Marcão, não temos como negar que a violência chegou a uma situação acima do aceitável e depois de um susto destes pelo qual passamos ficamos ainda mais abalados.
Mas, você pode até dizer que faço parte dos cariocas que “não querem enxergar a realidade” ,discordo de algumas colocações que parecem um pouco as generalizações e baseadas um parte no distanciamento , parte na justificada revolta com o que ocorreu . Ex: “… fez o Rio mergulhar numa espiral negativa que eu acho que está longe de acabar, se é que um dia vai. Seu último título, o de capital cultural do país, se deve somente ao fato da Globo ser carioca” O Rio continua sendo a capital cultural, porque sua vocação é para isso não à toa. Cultura tem relação com história ( que o digam os povos Europeus ) e do Rio é extremamente rica : berço do samba, da bossa nova, do choro… Na Mangueira o samba sempre será cultuado e sempre carregará alguma coisa de Cartola, a “Rua Nascimento Silva 107″ continuará a existir bem como o apartamento da Nara Leão onde a bossa não nasceu mas “foi amamentada” , os locais por onde Pixinguinha tocava e frequentava não vão sair de lá ( ainda que tenha que se escolher a hora para se chegar por lá ) as rodas de choro que aparecem atualmente em cada esquina têm certamente relação com este passado rico, que alimentam o presente.
O próprio inchaço populacional sem o crescimento da devida estrutura e distribuição de renda que multiplica os problemas dos quais padecemos como a violência, cria uma diversidade e troca que por outro lado é um ganho cultural e humano. Quando na praia seencontram o garoto da favela e o playboy do asfalto ( e este é um diferencial do Rio em relação à São Paulo) , em alguns momentos para o conforto, mas em outros para jogar um futebol ( os times de futebol de praia mostram esta mistura ) isso é um diferencial . Por isso , não quero cuspir para o alto, mas espero conseguir enquanto posso , à tentação de viver nos condomínios onde convive-secom o mesmos tipos de pessoa , que são os mesmos que frequentam o shopping , que são os mesmos que frequentam a escola de classe média…Diversidade é fundamental.. O crescimento da Lapa recentemente, com uma roda de samba, de choro de bossa, de rock à cada esquina sem apoio do poder público que teve que vir à reboque , mostra que este “ocaso” cultural não é verdade, pelo contrário, basta visitar sites de turismo no exterior, onde quem escreve não é um “carioca vesgo” , para ver as citações sobre o crescimento da ebulição cultural da cidade .
Outra citação seria : Copacabana, a “princesinha do mar” é há muito tempo ocupada por ladrões, putas e travestis….” aí nem precisa falar sobre a carga de generalização, mas vou além : ali tem “povo” e por mais que não seja minha praia e não goste de frequentar, tenho que dar o braço à torcer sobre crônicas de pessoas que enaltecem a vocação de Copacabana para a mistura. “As vias expressas que cortam os subúrbios da cidade são veias abertas por onde corre o sangue de cidadãos baleados sem misericórdia, em ônibus e carros de passeio. Os moradores da zona sul não visitam mais seus amigos e parentes na zona norte, por medo de transitar pela cidade. E mais recentemente, até a Barra da Tijuca, o ultimo bastião do que seria na cidade um lugar “decente” para se morar e que era destino certo da classe média alta, já está igual ao resto da cidade.” Este trecho me lembra os tempos de Universidade ( bota tempo nisso…). Eu tinha um amigo que era de Minas e noivo de uma menina que morria de medo de vir ao Rio em função de , naquela época, já ouvir falar da violência do Rio. Ele , veio também com toda esta carga de medo e após morar um tempo na cidade ria ao comentar que eles em sua cidade tinham a impressão que todos corriam para o trabalho se agachando para passar entre as balas… Logo após um dos atentados de atiradores em crianças à escola por aí, lembro que li um artigo de um Americano revoltado, falando sobre o quanto estava doente a sociedade americana com seu culto às armas, ao materialismo , etc… e sobre o seu medo em relação aos grupos com os quais sua filha convivia no colégio ,o que dava a impressão de que cada ida dos filhos ao colégio era um terror para os pais… Este texto foi usados por muitos por aqui, mas que eu logo percebia que existia ali uma generalização , se certamente servia à uma reflexão, obviamente era carregada de exageros estimulados pela revolta sobre o acontecimento.
“… É fato que o Rio não já merece mais a admiração que um dia mereceu dos outros estados da federação…” Para terminar pois já me alonguei demais…neste item os números falam sozinhos… apesar da grande divulgação sobre ocorrências de violência no Rio, inclusive pelo fato da Globo ser aqui ( o episódio da revolta das quadrilhas organizada que pararam São Paulo escancarou que em alguns itens a violência lá estava maior do que no Rio ) o Rio ainda é disparado o primeiro destino para turistas nacionais e internacionais. A cidade à cada ano fica mais cheia no verão e na época de carnaval em função do retorno dos Blocos à rua na forma democrática que o Carioca insiste em manter ( sem abadás como na Bahia ) numa espriral crescente e não descrescente.
Enfim, o Rio é infelizmente um reflexo escancarado da desigualdade social em nosso país . O episódio com minha prima e comadre que amamos tanto, nos abalou bastante, mas como seu espaço é democrático , deixo minha opinião de que , como várias grandes metrópoles pelo mundo,mão estamo nem no Paraíso nem no Inferno.
Quem sabe um dia trocamos idéia sobre isso tomando uma Buds ou Skoll. Um grande abraço, beijo para todos especialmentepara minha prima que certamente não tem noção sobre o sofrimento e angústia que passamos naqueles momentos de pesadelo. Cláudio. “
E já que eu coloquei aqui a opinião do Cláudio, vou colocar também o comentário da Ludmilla, também prima da Kelly, sobre o mesmo assunto:
“Oi Marcus,
Li o livro “Cidade Partida” há bastante tempo e lembro que a história me fascinou, muito por se tratar de uma realidade distante da minha (ainda niteroiense, freqüentadora da Região Oceânica e arredores – e só). Realmente esta distância entre as duas cidades foi ficando cada vez menor até chegar ao ponto em que estamos hoje, onde o crescimento das favelas supera e em muito o crescimento do asfalto, onde, teoricamente, deveria crescer uma sociedade civilizada com acesso à educação, saúde, etc. Infelizmente, o movimento de crescimento não foi o inverso, que pudesse gerar uma vida melhor, também, para a população dos morros…
Mas aí, entramos em “questões filosóficas”/ consumo de drogas alimentado pelas classes mais abastadas (vale a pena ver “Meu Nome Não é Johnnny”), etc. Fica para o próximo chopp.
De resto, perfeito o relato. Realmente a defesa é sempre achar que “tudo bem, já que não aconteceu nada de mais…” Mas não é assim, não está tudo bem e não podemos deturpar nossa visão sobre a violência, não podemos nos conformar. Um exemplo é o barulho de tiroteio (muito comum em alguns bairros, inclusive nobres, do Rio), não adianta falar “é longe”, “não chega aqui”, que nunca vou me acostumar com situações como esta.
(Mais um desabafo, mas não poderia deixar de postar meu comentário)
Beijos a todos”
E o comentário da Tânia, também prima da Kelly:
“É mais ou menos assim…
Aqui uma violência social…Desigualdade social,as cidades inchadas e sem controle e possibilidade de receber tamanha população e suas carências e necessidades imediatas.
E aí uma violência patológica daquelas que se cria um ser sem valores humanos ,só material e ele um dia decidi entrar numa escola,ou qq lugar público e matar aos montes sem nenhuma justificativa racional.
Sendo que a que me atinge mais é a que vivo no Rio e por isso tenho a tendência a concordar com o Marcus.Nãi sei o que fazer exatamente,mas sei que devia fazer alguma coisa além de orar ( o q já faço)para mudar o nível de violência da cidade que amo!!
Bjs!! Tania”
Quem quiser ver a sua opinião aqui também, é só escrever para cá.