Arquivo da categoria ‘Literatices’

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Quarentinha

Outubro 2, 2009

forty

Poeminha dos Quarenta
por Marcus Monteiro

Desde criança a gente tem pressa
De chegar nos vinte e virar “gente grande”,
e poder viver a mil por hora.
Pois a velhice é uma terra distante, longe à bessa
E o que vale é o aqui e o agora

Os vinte vão e os trinta vêm
E se descobre o tanto de sabedoria que ainda não se tem
Logo a gente, que achava que sabia demais…
Nós, que até há pouco éramos filhos
Agora passamos a ser pais

E os Quarenta chegam quase sem avisar
E um dia a gente olha no espelho e diz “wow!”
“Já não sou mais um garoto”, isso não dá para negar
Mas sensação de ser jovem continua
Com o equilibrio perfeito entre fôlego e know-how

Os prazeres da vida começam a mudar
E uma noite inteira na balada, já tem cara de furada.
Um bom papo, um cervejinha, a Kelly para abraçar
Um bom livro, um bom filme, brincar com a garotada
E sexo na escada ainda é bom, mas na king size é bem melhor…

E é por isso tudo que eu saúdo os meus Quarenta
E tudo o que vivi não foi à toa
E, apesar dos primeiros fios de cabelo grisalho,
Digo para quem quiser ouvir: “Que venham os oitenta!”
Pois a vida é muito boa,
E velho é o caralho!

PS: O post aí embaixo foi o presente mais legal que eu ganhei hoje e em todos os meus aniversários! :-)

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Project Planning

Agosto 19, 2009

Nota: De vez em quando me bate uma de escritor. Isso é raro, mas às vezes acontece. Normalmente são textos pequenos, estorinhas que me vêm na cabeça por um motivo ou por outro, normalmente ligado a algo que eu vivenciei, li em algum lugar, ou assisti na TV. E quando isso acontece, eu coloco aqui no blog, sob a categoria “Literatices”. Se é bom, não sei, mas lá vai… e tem mais “literatices” minhas aqui

Félix tinha tomado uma decisão. A derradeira decisão: ia acabar com a própria vida. A mesma tinha ficado vazia, perdido o propósito, ele não tinha nada nem ninguém para o que viver. Ainda não havia decidido como ia fazê-lo, mas antes disso (talvez essa fosse realmente a sua última decisão – o como) e como ele não tinha pressa, resolveu fazer uma lista das coisas que queria ter feito e não fez, por qualquer motivo que fosse.

Pegou um bloco de notas e começou a lista. Quando estava na sétima página do bloco viu que tinha um montão de “coisas que queria ter feito e não fez”. E resolveu que tinha algumas coisas ali que ele não poderia deixar de fazer antes de ir. Ele estava decidido, ia se matar, mas para que a pressa? Então resolveu rever a lista e priorizá-la. Ele era bom naquilo. Era uma pessoa extremamente organizada. Sua vida inteira era detalhadamente planejada. Não era de se espantar que sua preparação para morrer não fosse diferente.

Pegou outro pedaço de papel e começou a listar as coisas em order de importância ou de urgência. O que fez ele lembra de outras coisas, que então foram adicionadas à primeira lista. E que acabaram influenciando a ordem da segunda lista. A coisa estava ficando complicada e ele resolveu encerrar por ali naquele dia. Amanhã continuaria. Pendurou as duas listas num quadro de cortiça em seu quarto e foi dormir. Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, sonhou. Com as coisas da lista.

O dia seguite era um sábado e ele nào precisava ir trabalhar. Depois de tomar um café, resolveu retomar o trabalho nas listas. E logo descobriu duas coisas: a primeira era que algumas coisas que ele queria fazer demandavam coisas, atividades, menores, que não estavam na lista orginal, mas que sem as quais as coisas “grandes” não iam sair. Sendo assim, ele resolveu “quebrar” as coisas importantes e suas folhas de papel separadas, com as atividades menores listadas em cada uma delas. As folhas já não cabiam mais no quadro de cortiça, e ele começou a colar as folhas direto nas quarto paredes do quarto. A segunda coisa que ele sacou foi que, algumas coisas dependiam de outras, numa determinada ordem. Ou seja, só as listinhas não iam dar conta do recado. Ele tinha que bolar um plano. E por aí foi. Quando ele se deu conta, eram mais de 6 da tarde e ele não tinha parado nem para comer. Resolveu encerrar por ali o dia, com a promessa de continuar no dia seguinte. E colocou mais uma atividade na lista: comprar um computador, pois aquilo estava ficando fora de controle. O que lembrou a ele que ele tinha que arrumar um jeito de pagar por todas as coisas que ele queria fazer. Então tinha que ver o quanto ele tinha, versus o quanto tudo ia custar, etc.

Resolveu tomar um banho e ir no mercado comprar umas cervejas e os ingredientes para um sanduíche. Na fila do caixa, na sua frente, estava uma mulher. Ele ainda não tinha conseguido ver o rosto dela, mas ela parecia da sua faixa etária. E bunda e o perfume já dela tinham conquistador ele. E então ele lembrou do item 53 da lista: “paquerar uma completa estranha na rua, ao vivo, e não pela Internet”. O antigo ele era o mais tímido dos tímidos e nunca faria isso, mas o novo ele, o suicida, tinha um plano a cumprir. E sem pensar muito cutucou no ombro dela e disse: “Oi.”

Cidinha não costumava dar papo para estranhos, mas alguma coisa naquele cara no mercado havia chamado a atenção dela, mesmo antes dele entrar logo atrás dela na fila. Alguma coisa no seu olhar, uma mistura de triste com obstinado tinha mexido com ela. Ela estava recém-separada, havia mudado recentemente para o bairro e ainda não tinha feito novos amigos. Antes mesmo dele chamá-la para sair, ela sabia que ia topar. E o programa fora naquele dia mesmo, direto do mercado, numa boa cantina italiana ali perto (ser pizzailo era o número 17 da lista dele).

Num outro sábado, um mês depois – Félix e Cidinha já eram um casal e passavam a maior parte do tempo juntos – o programa era um jantar na casa dele, preparado pelo próprio, acompanhado de um ótimo vinho neo-zeolandês (entender de vinhos, item 29 da lista). Uma coisa levou à outra e no final da noite ele a levou para conhecer o seu quarto. Seria a primeira noite deles juntos.

Ao entrar, ela nota as paredes cobertas de folhas de papel e pergunta: “o que é isso?”. E ele responde: “Nada”.

Na manhã seguinte, ela ainda dormindo, ele resolveu a recolher as folhas das paredes. Ela tinha mudado completamente suas prioridades e aquele plano estava completamente furado. O que era ótimo. Outra coisa que ele resolveu foi que, dali para a frente, ele só ia planejar sua vida no curto prazo, e no limite de uma folha de papel. Afinal de contas, mesmo os melhores planos podem ir por água abaixo. E isso não é necessariamente ruim.

Sobre a idéia de se matar? Mas nem fudendo…

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Presentinho

Dezembro 5, 2008

Além dos tradicionais presentes “do Papai Noel” embaixo da árvore, ele colocava um pacotinho extra, endereçado a todos os filhos juntos. Era o menor pacotinho de todos, e portanto era o último a ser aberto na manhã de Natal.

Os filhos abriam, olhavam para o pai meio se entender, davam de ombros e iam brincar com os outros presentes. Aqueles que eles tinham realmente pedido. Eles só iam sacar muitos anos depois que aquelezinho era o presente mais valioso entre todos.

O do ano passado tinha um bilhetinho escrito assim:

“Listen to the mustn’ts, child, listen to the don’ts, listen to the shouldn’ts, the impossibles, the won’ts, listen to the never haves.

Then listen close to me: anything can happen, child, anything can be.”
– Shel Silverstein

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Literatices – 7

Novembro 6, 2008

Ele estava agachado atrás do muro, suando como uma bica. Estava cansado, já nem sabia mais a quanto tempo estava lutando, só se lembrava que ainda não era noite quando invandiram a favela. E agora o sol já havia nascido de novo.

Havia se perdido de seu grupo, estava só, num pedaço do morro que ele não conhecia. O que era estranho, pois havia crescido ali, logo ali embaixo, no asfalto.

De repente ele ouve um barulho do outro lado do muro. Se vira e olha por cima do parapeito, pronto para atirar, mas vê uma criança com uma bola na mão.

- Vamos brincar, tio?

Ele olhou para a bola e em seguida para o seu fuzil. Era um soldado, estava ali à trabalho. Olhou para a bola de novo. E mais uma vez para o fuzil. Ponderou sobre o que fazia ali. Por que aquele trabalho todo se todas as armas apreendidas com os traficantes iam voltar para o morro do mesmo jeito, “vendidas” pelo comandante? Ao fundo, os tiros não paravam de pipocar para todos os lados.

Olhou para a bola e depois para o fuzil. Ele era a lei, estava ali para prender bandidos. Olhou para o menino, que sorria para ele. E mais uma vez para a bola, e logo depois para o fuzil. Não queria mais matar. E a maioria dos seus “inimigos” eram jovens, quase crianças. Um pouco mais velhas do que aquela que estava ali na sua frente e que provavelmente dali a alguns anos estaria atirando nele do alto do morro.

Olhou de novo para a bola. E depois para o fuzil. E tomou uma decisão. Largou o fuzil.

E sem saber, naquele dia, ele mudou a história daquele menino e daquele morro.

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Paradoxo

Setembro 29, 2008

Queijo suíco, outro grande paradoxo…

Filho: Pai, o que é Sabedoria?
Pai: Sabedoria é saber fazer as escolhas certas.
FIlho: E como eu consigo isso?
Pai: Isso vem com a experiência, filho.
Filho: E como eu consigo experiência?
Pai: É… fazendo as escolhas erradas… :-)

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Buffer Overflow

Setembro 24, 2008

Aaaaargh!

Ele foi abandonado na frente do convento, embrulhado numa folha de jornal do dia anterior. Há quem diga que veio dali o seu gosto pela palavra escrita.

Apesar das dificuldades da infância, órfão de pai, mãe, amor, respeito e carinho, ele conseguiu (sobre)viver. E o que tinha de frágil no físico ele compensava no intelecto. A fraquza dos seus braços não faziam nenhuma falta ante à força de suas palavras, de suas idéias. Aprendera a ler sozinho e desde então lera tudo que passava pela sua frente. Vomitava conhecimento. Sabia tudo.

Um certo dia resolveu mudar o mundo, armado de suas certezas e boas intenções. Sabia o que fazer, pelo menos na teoria. Mas mal sabia ele que o Homem Por Trás da Cortina comia caras como ele no breakfast, antes mesmo do primeiro gole de café. Em menos de 10 anos ele passou de revolucionário à alienado, ou melhor, anestesiado. Confortavelmente anestesiado, como diria o David Gilmour.

Um dia foi encontrado pela empregada, quando ela chegava para a faxina semanal, debruçado em cima dos seus textos e suas idéias . Idéias que iam mudar o mundo. Idéias que nunca saíram do papel onde foram escritas. Morrera engasgado pelas próprias palavras.

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All You Need is Love

Agosto 13, 2008

Fazia seis meses que eles não se viam e se encontraram na fila da locadora. Ele abaixou para pegar a carteira que tinha caído no chão e quando chegou lá embaixo deu de cara com um pé, na verdade dois pés, que tinham acabado de entrar na fila. Ele a acompanhou desde a canela e quando passou pelo joelho achou que ele não era estranho, mas só quando chegou mesmo no rosto confirmou que realmente a conhecia. No sentido bíblico inclusive.

- Oi…
- Oi, tudo bem?
- Você ainda aluga filmes aqui?
- Toda semana.. e você?
- Quase nunca, mas hoje me deu vontade.
- Legal.

Ela estava mais bonita do que ele se lembrava. Não estava arrumada, mas mesmo assim estava bonita. Ela tinha essa qualidade. Se vestia de modo despojado, nunca usava maquiagem, mas estava sempre bonita.

- Que filme é esse?
- “The Illusionist”, com o Edward Norton. E você, está pegando o que?
- “The Holiday”, com a Kate Winslet. Eu adoro essas comédias românticas.
- Eu sei…

Ele estava sem graça. Não tinha papo, nada lhe vinha na cabeça. Mal sabia ele que ela estava igualzinha, até um pouco nervosa. Tinham vivido um relacionamento curto, mas intenso, que acabou quando ela disse para ele tinha saído de um relacionamento longo e não sabia se queria se envolver de novo. No fundo, no fundo ela, queria era confirmar se ele gostava dela. Gato escaldado, já tinha se ferrado antes, ele resolveu não investir. Não disse nada. Eles começaram a se ligar menos, a sair menos, até que pararam completamente de se ver. A fila anda e ela finalmente consegue pensar em alguma coisa para falar:

- Quer dizer que o sábado vai ser em casa vendo um filminho.
- É, o tempo está pedindo. E eu tenho um White Zinfandel na geladeira me esperando.
- Eu também, só que vou trocar o vinho por pipoca e coca zero.

Ele riu.

Ela estava acompanhada de um outro cara, mas pela expressão corporal dos dois naão dava para sacar se eram amigos ou namorados. “Quantos relacionamentos será que ela teve depois de mim ?”, ele pensou. Provavelmente vários, mas isso era irrelevante. Ele não tinha tido ninguém. Pelo menos ninguém que valesse. E isso era frustrante. Saíram da locadora um atrás do outro (ele tinha demorado um pouco mais na porta vendo os posters de propósito) e se despediram. Ele virou para a direita, ela caminhou para a esquerda.

Exatamente 9 passos depois de se afastarem ele vira e chama o nome dela. Ela dá alguns passos na direção dele e ele pergunta:

- Eu também estou com “Across the Universe” lá em casa. Um musical. Dizem que é ótimo.
- Eu já assisti. É ótimo mesmo – ela sorriu, meio sem graça.
- Ah, ok … Bom, foi um prazer então. Tchau. – ele tentou sorrir, mais sem graça ainda.
- Tchau.

Ele vira as costas e vai embora. Se sentindo ao mesmo tempo aliviado, por ter tentado, em um babaca, também por ter tentado. Duas horas depois ele coloca o DVD no aparelho, liga a televisão e o home theater e, quando vai se sentar, a campanhia toca. Quando ele abre a porta dá com ela sorrindo, com um pacote de pipocas numa mão e seis latinhas de coca na outra.

- A gente pode assistir ao meu filme primeiro?

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If Guilt was a color

Junho 12, 2008

Mais uma criação da poetisa da família…

If Guilt was a color
By Letícia Monteiro

If Guilt was a color it would be blue,
As blue as a dark spooky night
If Guilt was a taste it would be awful
As awful as eating rotten food for the rest of your life
If Guilt was a feeling it would be sad
As sad as a puppy with no mother
If Guilt was a smell it would be unbearable
As unbearable as all the bad things in the world
If Guilt was a sound it would be quiet
As quiet as a baby cat

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Instant Wishes and Fears

Maio 7, 2008

Se o que falam do meu talento escrevendo é verdade, esse talento corre no sangue e é hereditário. Com vocês, um poema que a Letícia, minha poetisa preferida, escreveu para a escola.

Instant Wishes and Fears
By Leticia Monteiro

I am afraid of snakes
I am afraid of spiders
I am afraid that I will be eaten by bugs
I am afraid that I will only live until 60
I’m even afraid that I might get busted for making stains
I am afraid of rats
I am afraid of gaps
I am afraid that I will have no friends
I am afraid my life will be ruined
I’m even afraid that the teachers won’t like me
I want a good friend
I want a cool cell phone
I want to go to high school
I want to be the best drawer
I even want a boyfriend
I want my friend to come back from Utah
I want to be a kid forever
I want no school to be allowed
I want more songs in my life
And I want to download everything on the computer
Most of all I want a brother that is not so annoying, and doesn’t get me in trouble.

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Curtinhas

Março 26, 2008

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Curtinha 1
Ele entrou na sala do médico cabisbaixo, preocupado, constrangido até. Mas não dava para fugir mais, ele estava entrando naquela idade “de risco” e o tal exame da dedada era inevitável. A mulher, que o havia acompanhado, ficou na sala de espera.

Dez minutos depois ele sai da sala triste, com a cabeça mais baixa do que quando entrou. A mulher resolve não falar nada pois a sala estava cheia. Já no elevador, os dois sozinhos, ela pergunta:

- E aí? Foi tão ruim assim?
- Não, foi bom, não precisei fazer. O doutor disse que como eu não tinha caso na família eu podia esperar um ano ou dois.
- Que bom! E por que você está com essa cara então?
- Ah sei lá. Já estava esperando a dedada… estou me sentindo meio frustrado, enganado até…
- Não fique assim meu bem… se você quiser eu te dou uma ajudinha – ela diz, sorrindo…
- Tá me estranhado?! Eu sou espada! Dedada no meu cú só com uma boa desculpa…

Curtinha 2
Andressa e Roxanna faziam ponto na esquina mais movimentada do bairro. Em tempos de vacas magras, como agora, as duas tinham que ralar muito peito para garantir o din-din. E, por ironia, ainda eram taxadas como “mulheres de vida fácil”.
- Olha lá, lá vem eles de novo – diz Andressa – Toda noite é a mesma coisa. Passam aqui, nos olham com aquela cara de nojo e atravessam para o outro lado da rua.
- Aquele ali não é o Seu Adamastor, cliente seu?
- É sim. Vem aqui toda semana..
- E aquela? É a mulher dele?
- É…
- Deixa isso para lá – responde a amiga.
- Deixo nada. Se eu pudesse eu fuzilava todo eles. Esses falsos moralistas…
- O que? Tá maluca? Quer acabar com a nossa clientela?!